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Meios De Pagamento: Vulnerabilidades, Impactos E Estratégias De Prevenção No Varejo

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Até pouco tempo atrás, o checkout das lojas era marcado por um leque tradicional de opções de pagamento: dinheiro em espécie, cartões de crédito e débito, boletos bancários e cheques

Cada modalidade desempenhou um papel relevante em seu tempo, refletindo a evolução do consumo e da infraestrutura financeira no varejo.

  • Dinheiro em espécie foi soberano até os anos 2000, garantindo liquidez imediata, mas trazendo riscos de roubo, falsificação de cédulas e altos custos logísticos.
  • Cartões de crédito e débito dominaram a partir dos anos 2000, popularizados pelas maquininhas no PDV e programas de fidelidade. Trouxeram conveniência, mas também taxas elevadas, risco de clonagem e fraudes via chargeback.
  • Boleto bancário se consolidou no e-commerce inicial, especialmente para quem não tinha cartão, mas com prazos de compensação lentos e suscetibilidade a adulterações.
  • Cheque foi amplamente utilizado até meados dos anos 2000 como forma de parcelamento e garantia de compra, principalmente em grandes valores. Porém, com o avanço dos cartões e meios digitais, perdeu espaço rapidamente devido à alta inadimplência, fraudes de falsificação e demora no processo de compensação, sendo hoje praticamente residual no varejo.

O que todas essas modalidades tinham em comum? Tempo, custo e fricção. Eram meios que, apesar de funcionais, criavam barreiras para o consumidor moderno.

Foi nesse cenário que o Pix surgiu, em novembro de 2020, como um divisor de águas: gratuito para pessoas físicas, instantâneo, disponível 24/7, integrado a aplicativos bancários e fintechs. Em apenas quatro anos, tornou-se o meio de pagamento mais usado pelos brasileiros, ultrapassando cartões, dinheiro e boletos. Em 2023, movimentou mais de R$ 15 trilhões em transações, com mais de 160 milhões de usuários ativos.

 

O segredo dessa ascensão meteórica? Velocidade, praticidade e custo zero. Mas, assim como uma avenida recém-aberta facilita o tráfego de veículos e dos infratores, o Pix abriu novas frentes para o crime organizado, e é sobre esse ponto que este artigo se debruça. A ideia é identificar onde estão as vulnerabilidades e sugerir ações que antecipem os movimentos dos adversários, minimizem perdas e protejam reputação.

As carteiras digitais (ou digital wallets) são aplicativos que armazenam cartões de crédito, débito e até saldo pré-pago em dispositivos móveis. Exemplos populares no Brasil incluem Apple Pay, Google Pay, Samsung Pay, além de carteiras oferecidas por bancos digitais (Nubank, Itaú, Bradesco, Mercado Pago, PicPay, entre outros). Na prática, elas transformam o smartphone ou smartwatch em um substituto do cartão físico, permitindo pagamentos por aproximação (NFC), QR Code ou integração direta em lojas virtuais.

 

 


DADOS DE MERCADO QUE JUSTIFICAM ATENÇÃO IMEDIATA

Antes de entrar a fundo no lado da vulnerabilidade, trago alguns números recentes para que a gente enxergue a dimensão do problema:

  • Em 2024, as fraudes no Pix causaram um prejuízo de aproximadamente R$ 4,941 bilhões, um crescimento de 70% em relação a 2023. Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC
  • A média mensal de notificações de fraudes aceitas no Pix ultrapassou 390 mil por mês em 2024. Broadcast
  • Em janeiro de 2025, foram registradas 324.752 notificações aceitas de fraude no Pix. Broadcast
  • Segundo pesquisa da CNDL/SPC Brasil, 76,4% da população já utiliza Pix como meio de pagamento. CNN Brasil+2CNDL+2
  • QR Code também está bastante difundido: 83% dos consumidores afirmam já ter utilizado QR Code para pagar alguma compra ou conta. CDL Ipiranga do Norte+1
  • O Pix P2B (payment from pessoa física para business) somou mais de 775 milhões de transações em 2023, movimentando cerca de R$ 71 bilhões. Fiserv
  • Em termos gerais de perfil, quem mais utiliza meios de pagamento digitais e Pix tende a ser de faixas etárias entre 25-44 anos (grupo economicamente ativo, com domínio tecnológico mais forte), embora existam usuários em todas as faixas. (Este perfil é observado em diversos estudos de uso tecnológico/pagamento digital; ideal confirmar com mais dados locais recentes).

 

Esses dados mostram:

  1. O Pix já é amplamente usado, não é mais um experimento.
  2. As fraudes crescem em volume absoluto bastante rápido.
  3. O problema pode parecer pequeno em porcentagem do total de transações, mas, no montante de valores e em número de usuários afetados, tem impacto real e crescente.

COMO OS NOVOS MEIOS DE PAGAMENTO MUDAM AS VULNERABILIDADES OPERACIONAIS E FINANCEIRAS

Aqui eu apresento as principais vulnerabilidades e exemplos de práticas,  para tornar claro o que está em jogo:

*Skimming em maquininhas é um golpe onde criminosos instalam um dispositivo, o "skimmer", em uma maquininha de cartão (ou caixa eletrônico) para copiar os dados do cartão e da senha do usuário sem que ele perceba, permitindo a clonagem do cartão e o uso indevido dos dados.

**Quishing, ou phishing de QR code, é um ataque cibernético onde um código QR malicioso é usado para redirecionar a vítima para sites ou downloads de conteúdo perigoso.

 


 

 

AÇÕES DE COMBATE PARA FRAUDES CONFORME O MEIO DE PAGAMENTO

Oroadmap a seguir traz medidas práticas que os varejistas podem adotar, com uma ordem de prioridades.

 

  1. Diagnóstico interno
    • Mapear quais meios de pagamento o negócio aceita (cartão físico, débito, crédito, carteiras digitais, QR Code, Pix, etc.).
    • Verificar falhas operacionais, por exemplo, quem no PDV exige comprovante, se os funcionários sabem checar credenciais, se há sistemas automáticos de alerta.
    • Auditar parceiros: PSPs (provedores de serviço de pagamento), adquirentes, fintechs associadas.
  2. Fortalecimento tecnológico
    • Autenticação multifator para carteiras digitais; geolocalização, reconhecimento de face ou biometria sempre que possível.
    • Monitoramento antifraude em tempo real de transações suspeitas (valores acima do normal, usos de QR estático, repetição de padrões de transferências).
    • Autenticação chip/EMV.
    • Limites adaptativos (por hora, diurnos/noturnos) para novos dispositivos ou contas recém-cadastradas.
  3. Educação e conscientização
    • Treinar equipe de vendas para identificar sinais de golpes, quando o cliente apresenta comprovantes, verifica chaves Pix, se há pressão para transferência imediata.
    • Alertas visuais no ponto de venda, banners, mensagens de app, “confirme sempre o destinatário do Pix”, “verifique QR antes de escanear”, etc.
    • Para consumidores: campanhas sobre phishing, falsas emergências, golpes via redes sociais.
  4. Integração de sistemas e políticas
    • Integração entre PDV, ERP e sistema de pagamentos para evitar discrepância entre “cliente pagou, mas vendedor não viu ou não foi confirmado”.
    • Políticas de devolução clara para casos de fraude, inclusive uso do Mecanismo Especial de Devolução do Pix (MED). O MED permite bloqueios preventivos e devoluções quando for constatada fraude. Banco Central+1
    • Estabelecer limites mínimos de segurança para cada meio — e regras claras para quando uma transação pode ser rejeitada ou bloqueada.
  5. Colaboração com setor regulatório e comunicação
    • Manter diálogo ativo com bancos, Banco Central, entidades do varejo para compartilhar informações sobre fraudes (contas marcadas, operações suspeitas).
    • Acompanhar atualizações regulatórias (por exemplo, novas exigências de segurança no Pix, verificações de identidade, obrigações para provedores).
    • Reportar fraudes de forma transparente, isso ajuda a criar uma reputação de confiança e aumentar a pressão para melhorias no sistema.

 

 

ONDE POSICIONAR MAIOR ACOMPANHAMENTO

Pense num mapa de calor que ajuda a visualizar onde os riscos se concentram:

 

  • Pix à noite ou em horários de baixa supervisão, especialmente para pessoas físicas novas ou dispositivos não cadastrados.
  • QR Codes dinâmicos vs estáticos: estáticos fixos em lojas físicas, especialmente sem supervisão ou rotatividade, têm alto risco de adulteração.
  • Dispositivos móveis perdidos/roubados + carteiras digitais + autenticação simples.
  • Contas-laranja e múltiplas transferências em sequência, ou depósitos feitos logo após recebimento de Pix suspeito.
  • Operações de baixo valor repetidas, “testes”, para sondar vulnerabilidades e depois escalar.

Esse mapa ajuda a priorizar onde colocar câmeras, onde treinar equipe extra, onde reforçar login/autenticação, etc.


IMPACTOS FINANCEIROS E SOCIAIS

No ambiente corporativo, cada falha de controle nos meios de pagamento abre espaço para riscos que vão muito além do prejuízo direto:

  • Financeiro direto: valores roubados, devoluções não concedidas, chargebacks, contas laranjas. Exemplo: os ~R$ 4,9 bilhões perdidos em 2024 no Pix. Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC
  • Custo operacional: horas gastas em investigação, atendimento ao cliente, auditorias, fraudes internas, retrabalho, falha de conciliação.
  • Perda de margem de lucro: para cobrir risco, empresas podem aumentar preços ou oferecer descontos apenas para formas de pagamento “mais seguras”, o que pode afetar competitividade.
  • Reputação e confiança: consumidor que teve dor de cabeça com golpe pode não voltar, pode falar mal; isso pesa muito no varejo físico local, no e-commerce e nas redes sociais.
  • Impacto social: exclusão financeira — quem tem menor poder de informação ou acesso tende a se tornar mais vulnerável. Quem não domina apps ou serviços digitais pode evitar Pix ou QR Code, perder ofertas ou pagar mais caro. Também gera insegurança geral, percepção de que “não se pode confiar”.
  • Custo regulatório/burocrático: multas, exigências legais, necessidade de adequação a normas de proteção de dados, responsabilidade legal se falhar em proteger dados ou prevenir fraudes.

MOVENDO-SE COM ESTRATÉGIA

Do dinheiro em espécie ao Pix, cada evolução trouxe ganhos de eficiência, mas também novas superfícies de risco. O varejo que deseja se manter competitivo precisa antecipar ameaças, investir em controles robustos e alinhar prevenção de fraudes à sua estratégia de negócio.
Mais do que evitar perdas financeiras, trata-se de proteger a reputação, a confiança do consumidor e a sustentabilidade futura da empresa.

Portanto:

  • Encare prevenção como investimento estratégico, não mero custo.
  • Use os dados  de transações, de fraudes, de feedback de consumidores, para construir tanto o roadmap (o plano de melhoria contínua) quanto o heat map (os pontos de risco mais quentes).
  • Tenha sistemas tecnológicos fortes + processos claros + equipe bem treinada.
  • Mantenha diálogo com reguladores, bancos, fintechs. O ecossistema inteiro precisa cooperar para que os golpes não se espalhem.

 

A Fraude não espera, e a sua estratégia também não pode esperar.
Reúna sua equipe, revise seu mapa de riscos e construa um plano claro para proteger pagamentos e proteger o lucro. O futuro do varejo digital depende de ações agora.

 

 

 

Última modificação emQuinta, 22 Janeiro 2026 15:35
Andre Ferraz Ochoa

Executivo com mais de 21 anos de estrada em Prevenção de Perdas, Segurança Empresarial e Gestão de Riscos, hoje atuando como Head da área. Já passei por gigantes do varejo e consultoria.
Formação em Gestão de Segurança Empresarial, MBA em Supply Chain e especialização em Gestão de Riscos. 
Autor de artigos, professor, palestrante e vencedor de do Prêmio ABRAPPE 2024 e 2025.
LinkedIn: www.linkedin.com/in/andrefochoa

Website.: https://br.linkedin.com/in/andrefochoa
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